Pedro é sinónimo de talento, voz, presença em palco, como nunca se viu. Na fortíssima personagem de Judas Iscariotes, em “Jesus Cristo Superstar” mostra todo o seu potencial de cantor e actor. O Rosa10 conversou com ele
Aos 30 anos, Pedro Bargado orgulha-se de fazer o que mais gosta: estar em palco. A vida não lhe foi fácil, mas ele não desistiu do sonho. Interpreta um dos personagens mais emblemáticos da história, Judas, seis vezes por semana, no Teatro Politeama, em Lisboa.
Foi membro do grupo Gospell “Shout”, intérprete e compositor de diversos temas musicais de novelas como ”Saber Amar”, “Morangos com Açúcar” e “Tu e Eu”. Conta com uma vasta experiência em teatro da qual se destacam as peças “D´EÇA” - de Eça de Queiroz e “O Meu Pé de Laranja-Lima” – de José Mauro Vasconcelos. Na televisão passou por programas como “Academia de Estrelas” e “Chuva de Estrelas” e ainda de algumas séries televisivas.
O que significa para si fazer o papel de Judas?
Significa poder estar a representar uma figura que é mal amada. É poder colocar em palco esta figura mal amada com um lado humano. Para mim significa amor. As pessoas quando olham para o papel de Judas ou quando pensam em Judas, pensam no traidor e no ódio.
Tem noção que passa do mal amado para o bem-amado?
Sim, um pouco.
O publico rende-se ao Judas, era esse o objectivo?
Não tinha um objectivo. Tentei mostrar um lado humano, por muito mau ou incompreendido que fosse, ele também tem o seu lado carinhoso, ternurento, o lado do amor. Todos nós temos lados bons e maus. É muito fácil chegar a palco e fechar a cara e fazer as coisas com uma intensidade forte, mas negra, má. Mas não é só isso. Esta peça é vista pelos olhos de Judas. Aqueles olhos viram amor onde mais ninguém viu. Ele agiu por amor e fez as coisas por amor.
Defende bem a personagem…
Sim, eu tentei defender a personagem e puxar ao lado do coração.
Como foi o processo de preparação?
Nos ensaios fazia a peça 4 vezes por dia. Foi um desgaste emocional muito grande.
Mas o feedback tem sido positivo?
Sim, muito positivo. A peça estreou no Porto, onde fizemos 100 actuações e já fizemos trezentas cá em Lisboa.
O público reage ao longo da peça?
Não, mas no outro dia, quando eu dou o “beijo da traição” houve alguém que gritou “Traidor!”, o que me deu imensa vontade de rir. Foi completamente inesperado. Eu sei que para a pessoa dizer isso eu estava a tocar na ferida, estava a representar bem, o que fez a pessoa reagir.
As pessoas vêm ver a peça mais do que uma vez?
Sim, é muito giro. É um carinho muito grande que se sente por parte dessas pessoas.
Pedem muitos autógrafos?
Muitos (risos) e aparecem sempre as mesmas pessoas.
Está em cena há quase um ano… Como é que aguenta? Não há dias em que não apetece?
Ainda no outro dia, nos Globos de Ouro, quando ouvi a Eunice Munõz a falar, comecei a chorar porque me identifiquei com tudo o que ela disse relativamente a isso. Às vezes é preciso ir buscar forças e não se sabe bem onde. Essa é a magia do teatro.
Ao fim de tantas actuações continua a transmitir a mesma intensidade, como é que consegue?
Eu tento sentir todos os dias o que faço. Buscar a verdade de cada situação, sentir que está de facto a acontecer a “Última Ceia”. Tento acreditar que a situação aconteceu e tento sentir a magia e a força daquele momento. Tento efectivamente, como se estivesse lá.
É essa a cena mais forte para si?
Todas elas são fortes, mas acho que de facto a "Última ceia" é uma das mais fortes para mim.
Depois de quantas representações se sentiu no máximo das suas capacidades?
Penso que foi nas duas estreias, no Porto e em Lisboa. Porque a adrenalina e os nervos têm um acréscimo nessa altura. Por várias razões: está a imprensa, estão figuras públicas, a crítica pode ajudar ou prejudicar. A pressão é maior.
Nota-se que no fim da peça, fica com um ar muito emocionado, como se fosse sempre a primeira actuação…
As vezes não me sinto merecedor das palmas. Não é modéstia, eu sinto-me é um pouco sem jeito.
Mas já se habituou?
Não, não me habituei (risos)
Tem alguma superstição antes de entrar em palco?
Todos os dias rezo antes de entrar, e também quando termino. Rezo a duas pessoas: ao meu irmão Paulo, que já morreu, e à minha tia Zaida. É aí que eu vou buscar força.
O Pedro é um homem lutador?
Sou, vou atrás do que sinto. Quando comecei a cantar queria gravar um disco. Acho que a paixão tem de ter um motivo. Se tivesse outra profissão que não esta, acho que me sentiria incompleto.
Não teve um percurso fácil até chegar aqui...
Tive de trabalhar bastante. Depois do “Chuva de Estrelas” trabalhei muito para fazer tournées, ainda fiz alguns trabalhos na televisão. Mas a determinada altura estive sem trabalho e aí, percorri esta avenida toda (Av. Da Liberdade) e fui a todas a lojas entregar currículos. Estava sem trabalho, não havia trabalho no campo da música, mas não ia ficar em casa a olhar para o tecto. Estar em casa sem fazer nada e ver os meus pais a trabalhar sem eu poder contribuir com nada deixava-me frustrado. Como a música não estava a dar em nada fui trabalhar numa loja. Depois ainda estive num trabalho com o Jorge Gabriel, até que esta oportunidade surgiu na minha vida.
Considera este o seu grande salto, enquanto artista?
Sem dúvida.
É muito reconhecido na rua?
Quando me reconhecem apontam e dizem “Olha o Judas”. A maioria das pessoas tem sido muito simpática.
Esta espectáculo estreou no Porto. O público de Lisboa tem diferenças?
No Porto ouvia-se muito mais o burburinho, a sala do Tivoli também é maior. E as pessoas vão para o teatro mais descontraidamente. No Porto vivem mais a peça do que aqui em Lisboa, são mais espontâneos. Gosto disso, se a pessoa gosta mostra que gosta.
Se tivesse de escolher outro papel nesta peça, qual seria?
O de Pilatos seria sem dúvida o que me daria mais gozo fazer.
Porquê?
Porque a personagem também tem um carrossel de emoções. O facto de estar no lado de Jesus, mas ter de o entregar. O seu papel é crucial.
Não tem substituto no seu papel, ao contrário do personagem Jesus, que tem dois actores. Gostava de ter alguém a substituí-lo?
Não. Pode parecer um pouco egoísta, mas eu trabalhei tanto para este papel, que o sinto como o meu bebé. Se o desse a outra pessoa para fazer igual ou melhor, acho que ficava com ciúme. O Filipe La Feria até pensou colocar um substituto para
o caso de eu ter algum problema, como aquela vez em que eu parti um dedo, em plena cena. E eu nunca quis substituto.
Partiu um dedo em plena cena? Não parou?
Não, claro que não, continuei (risos)
Como são os ensaios com tanta gente?
Somos 50, é quase como um trabalho. São os meus colegas de trabalho.
O que leva seu para a personagem?
O coração, entrego-me totalmente. É como se entrasse em outro mundo. No fim saio e sou eu novamente.
Está a preparar um disco. Sim, estou a trabalhar nisso, já tenho músicas preparadas. Também tenho algumas músicas em novelas.
Para quando um lançamento?
Não sei (risos) ainda não tenho editora
E teatro? Sei que tem formação. Apesar de fazer teatro há 5 anos, não gosto de dizer que sou actor. Não é falsa modéstia, é porque acho que sou ainda muito pouco ao lado de actores como o Nicolau Breyner.
Uma palavra sobre Filipe La Féria…
Todos conhecem o mau génio de La Féria, mas ele é uma pessoa muito competente, com sensibilidade suficiente para lidar com os actores e motivá-los. É uma pessoa amável, carinhosa, capaz de elogiar o nosso trabalho. O La Féria controla tudo ao pormenor para que tudo resulte bem, para que seja perfeito. Se nós falhamos é como se ele falhasse e por isso não admite falhas, só dessa forma é que tudo funciona.
Ficou mais católico depois desta peça?
Não, fiquei sim mais ciente da vida. Sempre tive uma ideia muito castradora da religião. É um defeito da religião católica, é muito penalizadora. Mas estas são palavras do Homem e não de Deus. A vida é muito mais simples. O que Cristo disse foi “amai-vos uns aos outros”, é assim tão simples, tão fácil...
_________________________Perguntas Rosa10
Qual foi a sua melhor recordação de infância?
As férias de Verão, quando podia estar a brincar na rua até à meia-noite.
Qual é a sua essência?
Amor.
Qual foi o maior elogio que lhe fizeram?
Foi quando me disseram que eu era o último ingrediente comparando com o filme “O Perfume”. Foi muito bonito de ouvir.
Tem algum ídolo ou modelo que o inspire?
Pela carreira, pela voz, pela postura o Stevie Wonder.
Que imagem tem do homem e da mulher portugueses?
No geral a mulher portuguesa é mais forte que o homem. O Homem tem muita força física, mas é um pouco choramingas no resto. A mulher é que tem a verdadeira força.
Se não fosse tão conhecido que excentricidade cometeria?
Estar no meio de um espectáculo e gritar quando está tudo em silêncio. Fazer o oposto daquilo que todos os outros estão a fazer.
Qual foi até hoje a sua maior oportunidade?
A nível de trabalho, este papel.
O que o faz rir?
A minha família, as pessoas que me estão próximas.
Qual foi a maior lição de vida que conheceu até hoje?
Que ninguém fica aqui para sempre. Que temos de desfrutar da vida. Ser um louco com limites. Correr atrás dos nossos sonhos, das nossas paixões.
Como é que vê o seu futuro?
Vejo o meu futuro brilhante.
Se fosse jornalista do Rosa10 quem gostaria de entrevistar e porquê?
A Sara Tavares. Eu chamava-lhe o “meu comprimido”, porque às vezes estava mal, ligava-lhe, e ela tinha a capacidade de ter sempre uma palavra certa para me dar, para me fazer sentir melhor. Ela transmite uma paz muito grande, tem uma luz própria, é carismática.
Qual é a pergunta que nunca lhe fizeram e que gostaria de ter respondido?
Se a dor física que sinto quando me magoo em palco é equivalente à dor que sinto quando Cristo está na cruz.